Introdução à Orquidofilia Brasileira

por Raimundo Mesquita

 
Uma questão metodológica

De que orquidofilia vamos falar aqui?
A etimologia não ajuda muito, pois o significado de orquidofilia, que vem do grego orchidos + filein (que significa, mais ou menos, amar orquídeas) nos leva à mesma perplexidade, ou seja, expressão demasiado vaga e genérica, que dá a entender que quem gosta de orquídeas, mesmo que não as cultive, é orquidófilo...
Então, orquidofilia brasileira quer dizer que todos os brasileiros e residentes no Brasil amam as orquídeas?
Até pode ser, pela magia e fascínio que essas plantas algo misteriosas, cercadas de encanto, exercem sobre as pessoas.
  Masdevallia Kimballiana Até hoje não encontrei ninguém que, mesmo
não sendo cultivador ou apreciador de flores,
diga que não gosta de orquídeas.
Encontra-se, sim, quem não goste deste ou
daquele gênero, mesmo entre orquidófilos
(sobretudo quando não se consegue cultivar adequadamente...), e, nesse particular, a pobre Masdevallia parece ser campeã do desagrado
no Brasil.

Como ficamos, então?

  Vamos procurar por uma ordem no caos.

A mim me parece que só há uma maneira de enfrentar o dilema posto acima, que, como todo sofisma, tenderia a paralisar a minha capacidade de prosseguir neste percurso em que procuro esboçar uma pequena introdução crítica à orquidofilia brasileira.
Não há outra maneira se não for a de dizer, de uma vez, o que entendo por orquidofilia, o que isto pretende significar para meu propósito de traçar um panorama da orquidofilia brasileira, inevitável e necessariamente incompleto, ou seja, de como, através de manejo e cultivo, se trata a orquídea no Brasil, como objeto de pesquisa ou de comércio, conhecimento, decoração e deleite, a enumeração não significando ordem preferencial, nem precedência.
Vou falar de confraria, de corporação, de sociedade secreta, em suma, vou falar dos clubes de amadores e cultivadores de orquídeas, que formam esse ser particular que se chama orquidófilo, porque não existe orquidófilo sem sociedade orquidófila.
Pode, até, existir cultivador solitário de orquídeas, mas este entra na categoria de floricultor, nunca de orquidófilo, já que não terá a "linguagem da tribo", não terá a ansiosa busca da flor mais bonita, não terá o desprezo por plantas bonitas mas comuns, sem forma que satisfaça os melhores padrões dos mais diversos sistemas de julgamento, não terá ânsia pela planta única, etc., etc....
Assim a orquidofilia de que vou tratar é a que se pratica através da convivência entre pessoas que gostam, cultivam orquídeas e fazem delas objeto de lazer e conhecimento.



Quando começou?

Não sei e acredito que ninguém neste país possa dizer com precisão histórica que a orquidofilia brasileira começou na época tal, com essa ou aquela maneira. Não existem pesquisas e estou convencido de que não existam registros confiáveis a serem pesquisados. Pelo menos não os encontrei até agora nas buscas que andei empreendendo, inclusive na Biblioteca Nacional, no período que antecedeu a Conferência Mundial e que rendeu material para algumas publicações em Orquidário. Existem, é certo, algumas informações esparsas e uns poucos registros, que indicam que o interesse pela orquídea começou, quase contemporaneamente com a orquidicultura européia (como sempre acontece no Brasil...), seja pelo intercâmbio cultural das elites endinheiradas, seja em razão da convivência de brasileiros com coletores estrangeiros que eram enviados para cá, no interesse da ciência ou do comércio europeu de flores..Há, por outro lado, uma vertente nacional de interesse científico, que, sem dúvida teve expressiva importância no desenvolvimento da orquidofilia brasileira: Frei Velloso, Alexandre Rodrigues Ferreira, Freire Alemão, Barbosa Rodrigues, Hoehne e, mais recentemente, no campo da divulgação de conhecimento e práticas de cultivo, João Decker, Waldemar Silva e Mercedes Silva Ramos (creio que seria valioso e útil levantar um catálogo crítico da bibliografia brasileira sobre orquídeas).
Num segundo estágio e já fixado, por assim dizer, o interesse, o gosto pelo cultivo se acentua a partir de cessão ou permuta de espécies brasileiras por gêneros e espécies estrangeiros que cultivadores brasileiros faziam com marinheiros de navios mercantes estrangeiros que atracavam nos nossos portos.
  Além disso, a orquídea, como objeto de coleção, desperta crescente interesse da elite que visitava a Europa ou que se educava ali e que, de volta, trazia refinamentos aprendidos nas exposições de flores e nas visitas aos estabelecimentos comerciais principalmente da Bélgica e da Inglaterra.
Não devemos esquecer, outrossim, os imigrantes que nos traziam hábitos e interesses, como é o caso mais eminente dos asiáticos trazendo-nos lindas plantas de seus países, com preferência por Cymbidium, Dendrobium, Vanda e Phalaenopsis.
Foto e composição / Photo and composition : Sergio Araujo
  Assim, a protohistória do cultivo de orquídeas no Brasil há que ficar nas generalidades, suposições e nos mitos.
Mas, como no Brasil tudo começou com os índios, há que registrar que foram eles os primeiros "cultivadores" ou, pelo menos e isto com razoável segurança, os primeiros adoradores e formuladores de mitos (cf. minha introdução a Francisco Miranda "Orquídeas da Amazônia Brasileira", EXPED, 1996, e "Ciência Hoje", revista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, vol. 5, no. 28, jan./fev. de 1987).
Dentre os rituais tribais estavam e, segundo consta, ainda hoje estão os de coleta de orquídeas, para finalidades mágicas, de medicina, cosmética e, talvez até mesmo, para enfeite, o que, do ponto de vista que defendi acima, considero uma primeira manifestação de orquidofilia, como a delimitei neste texto.



O Arquipélago, ou melhor dizendo, os Arquipélagos
  Na palestra inaugural da 15a. Conferência Mundial sobre Orquídeas, ao apresentar a Orquidofilia Brasileira, aos visitantes presentes (cf. Atas da 15a. Conferência Mundial sobre Orquídeas. 1996, ed. Naturalia, pag. 29 ss), para simplificar e facilitar a compreensão do panorama que traçava, afirmei que o Brasil orquidófilo era um arquipélago composto de cinco "ilhas".
Estabeleci, ali, uma divisão coincidente com as cinco grandes regiões em que se costuma dividir sociológica, política e, mesmo, geograficamente, o país. Tratei tais regiões como províncias orquidófilas, sabendo, embora, que as partes que compõem tais regiões têm individualidades muito específicas que as distinguem completamente de cada um dos outros componentes da "província".
Ou seja, é cada vez mais forte em mim a convicção de que o "Arquipélago" é formado de tantos outros arquipélagos...
Mapa/Map: Sergio Araujo

  Vou exemplificar com a Região Norte, sobre que, naquele texto, tive o cuidado de ressaltar que, à imensidão da área, correspondia uma enorme diversidade, geográfica, cultural, de ocorrências vegetais, etc. Isto torna-se muito importante de destacar já que a linha motriz que segui naquele trabalho e que ainda me parece válida era a de que o interesse florístico regional se desenvolve em torno das principais ocorrências locais, como, para exemplificar,
 
Cattleya eldorado no Amazonas,
Cattleya violacea no
Mato Grosso e Rondônia,
Cycnoches, Mormodes, Accacalis, Catasetum no Pará e por aí afora..
. Catasetum - foto/photo: Sergio Araujo  
  C. labiata- foto/photo:Sergio Araujo O Nordeste em torno de
Cattleya labiata e
C. granulosa,
apenas para citar
duas espécies
muito apreciadas.
 
A Bahia, que já teve uma grande tradição
orquidófila,com Ernani Urpia e José Martins
Catharino, entre outros, é hoje uma indefinição,
apesar de sua maravilhosa e rica flora
orquidácea que rivaliza com as de
Minas Gerais e Espírito Santo.
Basta enumerar algo do seu acervo:
C. warneri, elongata, kerri, amethystoglossa, acklandiae, tenuis, etc.
Laelia: sincorana, bahiensis, etc.
Fotos/Photos: Sergio Araujo
  Foto e composição / Photo and composition : Sergio Araujo O Espírito Santo
e
Minas Gerais
cultuando
principalmente
C. warneri,
C. schilleriana,
C. walkeriana,
Laelia jongheana

e os
estados do sul,
com
Laelia purpurata
e
C. intermedia,
  enquanto que no Rio e São Paulo o interesse orquidófilo apresenta um maior ecletismo, com grande presença de híbridos nas coleções.
É certo que é demasiado esquemática esta redução que faço da atividade orquidófila nacional e, também, está claro que não é o propósito aqui reproduzir um tema que pretendo ter esgotado naquele trabalho apresentado à 15a. Conferência. O que quero, agora, é, simplesmente, destacar a diversidade de interesse das sociedades orquidófilas, de certa maneira relacionado com ocorrência e abundância de determinados gêneros e espécies naquela região, o que faz dessas sociedades orquidófilas seres muito particulares, "ilhas integrantes de um arquipélago".
Mas, como todos sabemos, o que faz um arquipélago não é, apenas, ser sempre formado por um conjunto de ilhas, mas o fato de essas ilhas integrarem um conjunto, uma cadeia.
Assim também a orquidofilia brasileira, que se comunica pouco entre si, mas tem a ligá-la, pelo menos, o interesse pela orquídea (*).
Este o sistema que forma o "arquipélago"...



A organização nacional inexistente.

Parece-me inegável que a orquidofilia brasileira ganharia muito se se organizasse em termos nacionais.
O porte do Brasil e sua diversidade, cultural, social, geográfica, ecológica, recomendam que, também, no que diz respeito à orquidofilia, se busque abrangência nacional. Não se pode pensar o Brasil orquidófilo em termos exclusivamente regionais, assim como, também, não se pode falar em orquidofilia brasileira sem pensar numa organização nacional que possa desempenhar certas funções de caráter geral. Uma delas, das mais eminentes, é um sistema nacional de julgamento. Existem muitas outras funções de âmbito geral que ensejariam e justificariam uma organização orquidófila "federal", como capacidade aglutinante dos interesses orquidófilos em geral (inclusive os de caráter comercial), perante as instituições sociais e mesmo o governo e entidades científicas.
Não é difícil imaginar o que se ganharia com a intensificação da permuta de informações em caráter nacional, basta considerar como se enriqueceriam de experiência e diversidade as associações orquidófilas, que teriam, por exemplo, acesso não só a informações mas, também ao conhecimento de outros gêneros e espécies que não apenas os locais (o que determina certa monotonia às coleções e faz com que as discussões fiquem, interminavelmente, restritas a variedades e nuances da planta em culto naquela localidade).
Quando se analisa de perto, estuda e observa o panorama orquidófilo brasileiro sentimos que existe a consciência madura da necessidade de que venha a existir um ente agregante das diversas tendências que caracterizam as sociedades orquidófilas locais.
Algumas iniciativas de transindividualizar o interesse orquidófilo já existem, como são os casos de organizações regionais como a Federação Gaúcha, a de Santa Catarina e, já com algumas características multiestaduais, pois agrega associações orquidófilas de São Paulo, Minas Gerais e Goiás, a Coordenadoria das Associações Orquidófilas do Brasil - CAOB e, de uma maneira diferente, pois, ainda que local, é uma entidade com características nacionais, a OrquidaRIO.
Tenho eu a crença quanto a que não demorará muito a formação dessa entidade nacional. A meu parecer, um único efeito dessa organização já justificaria a sua existência, criar uma massa crítica orquidófila de âmbito nacional, renovando os conceitos, enriquecendo as experiências dos cultivadores e, sobretudo, criando um sentimento nacional em torno dessa riqueza brasileira, diversa e dispersa, isto sem falar na possibilidade de virmos a ter uma base, econômica e científica, mais sólida, para o estudo, comércio e conhecimento das nossas orquídeas.

  As sociedades orquidófilas

No quadro atual, as sociedades orquidófilas brasileiras apresentam certas características comuns, que, esquematicamente, se podem resumir assim
    a) O dilema financeiro - que se traduz em falta, por assim dizer, endêmica e permanente, de dinheiro. As anuidades que se cobram dos sócios é irrisória, seja porque os sócios não aceitariam pagar valores maiores, ou porque a sociedade teme que aumentando a contribuição anual iria perder grande número de associados, o que eliminaria os benefícios do aumento. Têm os dirigentes, por outro lado a consciência que a sociedade não oferece a seus associados serviços em quantidade e qualidade suficientes.
Os sócios, por sua vez, tendem a achar que a sociedade não precisa de mais dinheiro do que a anuidade que lhes cobra e se entendem desobrigados de contribuir com mais...
Por seu lado os orquidófilos ricos, como tem acesso à informação de que necessitam e dispõem de boas fontes de suprimento, não precisam pertencer a uma associação, nem mesmo costumam freqüentar as reuniões e eventos; já os pobres não podem mais do que dão...
    b) A fórmula organizacional consagrada - Praticamente todas as sociedades orquidófilas brasileiras seguem um padrão de organização administrativa e de suas agendas de funcionamento:
    b.1) tem sempre uma diretoria com a seguinte composição: Presidência, Vice presidência, Diretorias Técnica, de Sócios, Administrativo-Financeira e, em alguns casos, de Exposições ou Eventos.
b.2) realizam periodicamente reuniões técnicas em que se assiste a uma palestra sobre um tema sobre orquídea, nem sempre científico, e reuniões sociais, em que se tem oportunidade de confraternização e conversas sobre orquídeas. Algumas associações costumam realizar cursos de iniciação ou de cultivo e executam, sistematicamente, sessões de julgamento de flores trazidas às reuniões.
b.3) o grande momento das sociedades orquidófilas são as exposições que realizam, pelo menos, anualmente.
  Algumas sociedades fazem um grande esforço para publicar periódicos de disseminação do interesse por orquídeas. Os dois exemplos brasileiros mais eminentes são as revistas Orquidário, publicada pela OrquidaRIO-SBO e o Boletim da CAOB, que já atingiram padrão de qualidade bastante razoável.
  É de notar, aliás, o visível e crescente interesse por orquídea como objeto de lazer e enriquecimento intelectual, pelo movimento editorial relativo ao assunto, com crescente lançamento de livros e até mesmo revistas comerciais sobre orquídeas. Além disso multiplicam-se os sites brasileiros sobre orquídeas, alguns de excepcional nível e aceitação internacional. Trabalhos de referência, como CDROMs sobre orquídeas de excelente feitura, aparecem a cada momento, o que permite esperar muito do futuro da orquidofilia brasileira.
Ganham corpo, ainda, manifestações artísticas e, mesmo, científicas relacionadas com a orquídea: desenho e pintura botânicos, já existindo uma boa quantidade de artistas e ilustradores botânicos, geração que vai sucedendo artistas como Samuel Salvado, Maria Werneck e, sobretudo, Margareth Mee pelo papel que exerceu no despertar do interesse e formação (que se intensificou quando fundada entidade que leva o seu nome, a Fundação Margareth Mee). Outras formas de manifestação artística, como pintura em porcelana e cerâmica. e, no campo filatélico, com alguns artistas de grande competência e qualidade e que tem levado os correios brasileiros a editarem selos de grande qualidade e beleza, com alguns colecionadores filatélicos que excelem, inclusive internacionalmente, como é o caso dos premiadíssimos José Evair Soares de Sá e Ferdinando Bastos de Souza.
Estou convencido de que esses despertar e intensificar são dos mais benéficos resultados da 15a. Conferência Mundial sobre Orquídeas.



Trabalho e a Pesquisa Científicos. A Universidade.

Nas universidades, jardins botânicos e nos herbários, com destaque, mais uma vez, para o Estado de São Paulo (como, p. ex.., a Universidade de Campinas, a ESALQ, a Seção de Orquidário do Jardim Botânico), assiste-se, também, incremento do interesse pela orquídea como objeto de estudo e pesquisa, o que acaba se refletindo beneficamente sobre as atividades das sociedades orquidófilas e sobre a capacitação do orquidófilo para melhor cultivar, assim como para conhecer melhor e ampliar o seu nível de conhecimentos.


Algumas considerações sobre o comércio brasileiro de orquídeas (**)

Será vantajoso entrar no comércio de flores e, em particular, de orquídeas?
Como para todas as indagações, são muitas as respostas possíveis à pergunta.
Um comerciante de orquídeas diria que não, temendo, talvez a concorrência. Só que ele não abandona seu comércio...
Um vendedor de insumos diria, com veemência, que sim...
Penso que a melhor resposta seria: "se você conhece, ou quer conhecer a atividade, se é capaz de aprender ou sabe cultivar plantas e gosta de flores, vá em frente, pois não existe atividade mais lucrativa do que fazer aquilo que diverte e de que se gosta. O lucro, no sentido econômico, acabará chegando, porque os "outros lucros" já tivemos desde o primeiro momento em que tomada a decisão de seguir aquele caminho".
Mas, como e por onde começar?
Não existe outra maneira senão começando...
Ou, dizendo melhor, começando por ser ou tornar-se um cultivador e ir aos poucos descobrindo se se leva jeito para a atividade. Descobre-se, também, que a atividade de cultivo de plantas ornamentais é exigente e absorvente, ainda que retribua com a satisfação de permitir apreciar-se um bela floração, que traz, como conseqüência, no plano econômico, um melhor resultado financeiro.
É muito importante, ainda, pesquisar as possibilidades do mercado consumidor, pois de nada adianta ter uma boa produção de flores de boa qualidade se não existe ou é medíocre o mercado de consumo.
Existem algumas condições básicas:
    1. Descobrir as exigências e necessidades do mercado e o gosto dos consumidores a atender antes de partir para o oferecimento de novidades, que só se justificam depois de o mercado consumidor ter adquirido uma certa sofisticação, tornando-se capaz de apreciar novas formas e padrões.
2. Procurar ter produção própria que assegure um mínimo de auto-suficiência. A prática atual nos maiores centros produtores é de suprimento misto: flores produzidas diretamente pelo produtor e outras tantas adquiridas de outros produtores, sobretudo nas épocas de pico de produção, quando a oferta cresce e os preços caem.
3. Tornar-se produtor e comerciante conhecido. Para isto a qualidade dos produtos e do cultivo são fundamentais.

  Alguns usos possíveis da atividade de comércio de Orquídea:
    1. Venda de plantas floridas em vaso.
2. Aluguel de plantas floridas em vaso.
3. Venda de flores cortadas.
4. Venda de mudas.
5. Produção e comércio de insumos, como vasos, etiquetas, adubos, defensivos, etc.
  Alguns usos possíveis do espaço no Orquidário:
    1. Cultivo
      1.1 - Uso racional do espaço: máximo aproveitamento.
        1.1.1 - Utilização de bancadas e espaço aéreo sobre as bancadas, plantas que precisam de mais luz.
1.1.2 - Na bancada, tudo que necessite de menos luz
1.1.3 - Utilização do espaço sob as bancadas, plantas de sombra que se beneficiarão com os resíduos de regas de fertilização e ajudarão a manter a umidade ambiente
      1.2. - Aluguel de espaço para cultivo de plantas de terceiros.

  Não existem, são de acesso difícil ou não são divulgadas estatísticas do comércio brasileiro de flores e, em particular, de orquídeas. Reconhecendo embora que existem diferenças expressivas, apresentamos algumas estatísticas dos Estados Unidos da América sobre produção e comércio de orquídeas:
    1. o comércio de orquídeas no ano de 1999 atingiu a cifra de US$79 milhões, contra US$65 milhões em 1998, com um crescimento de 22%/ano (desse total o crescimento de vendas representou 4%), tornando-se, assim, o segundo produto na escala de vendas internas do segmento de flores envasadas;

2. a Califórnia é o maior vendedor, vindo a Flórida em segundo, seguidas do Havaí e de Illinois;

3. a Flórida, no entanto, é o maior produtor, com 4,7 milhões de vasos contra 2,8 milhões da Califórnia;

4. no total os produtores da Flórida venderam US$31 milhões, contra US$24 milhões na Califórnia, sendo que os produtores deste estado obtiveram os melhores preços por seus produtos;

5. em média, os californianos (US$13,27) obtiveram cerca do dobro do valor obtido pelos comerciantes do Havaí, com US$7,29, e da Flórida, com US$7,10, por vaso individual. Foram ultrapassados pelos de Illinois, com a média de US$14,90, por vaso de planta adulta.
(fontes, http://www.usda.gov/nass na seção "Today's Reports" e "Orchids", publicação da American Orchid Society, número de agosto de 2000, pag. 790 e de outubro, pag 1090).
  Com o conhecimento empírico que me dá o fato de ser orquidófilo e constante frequentador de exposições e feiras de orquídeas, vou arriscar alguns números seguindo um pouco a referência acima:


Os maiores centros produtores e de consumo do Brasil
 
Estado
Estabelecimentos com escala comercial
(estoque acima de 50.000 plantas)
• São Paulo
30
• Rio de Janeiro
08
• Rio Grande do Sul
02

• Minas Gerais

01
• Mato Grosso do Sul
01
• Santa Catarina
01
• Paraná
01
Mapa/Map: Sergio Araujo

  É indiscutível que o grande mercado produtor e consumidor, como de regra na atividade econômica nacional, é S. Paulo, seguido pelo Rio de Janeiro (onde, aliás, se iniciou a produção de orquídeas em escala comercial e industrial, em contrapartida à produção paulista, inicialmente meio artesanal e que só começou a seguir o padrão existente na antiga Capital Federal, quando fundado por Adhemar Manarini um grande orquidário comercial, o Equilab, de Campinas).
Verifica-se que sudeste e sul, pela tradição cultural vinda com o imigrante, como pelo maior nível de riqueza, sofisticação de gosto e interesses de lazer, detêm os grandes estabelecimentos industriais e comerciais, por que, aí, é que se concentram as grandes camadas de consumidores.
Levando-se em conta que o potencial brasileiro, pelo fato de ser um dos maiores santuários mundiais de orquídeas nativas, com gêneros altamente apreciados pelos consumidores, por suas propícias condições climáticas, pelo baixo custo de sua produção de flores, pelo seu grande mercado interno, é de presumir e desejar que possa vir a situar-se, dentro de não muito tempo, entre os líderes do comércio mundial ao lado da Holanda, Estados Unidos da América, Alemanha, Malásia (onde a orquídea está entre os seus maiores produtos de exportação), Tailândia (o comércio de orquídeas nesse país é tão importante que a logomarca da sua companhia aérea a Thai Lines, é uma orquídea), Inglaterra, Formosa, Austrália, África do Sul, Colômbia, Peru e Equador.
Em alguns desses países a produção atingiu uma escala tal e é tão barata, como no caso da Holanda, que tornou-os fonte de abastecimento do mercado mundial de flores. O Brasil, por exemplo, importa intensamente desses países, a pesar das suas possibilidades imensas e de ter picos de produção que derrubam os preços (como ocorre em São Paulo, mercê da pujante colônia japonesa, com relação a algumas espécies originárias da Ásia, Dendrobium, Phalaenopsis e Cymbidium).
Em matéria de números de vendas anuais não conhecemos indicadores, mas arriscamos afirmar, com base em algumas observações e informações existentes, licenças de exportação e de importação, que, por baixo, a atividade supera a casa de US$5 milhões/ano, a que se somaria algo como US$2 milhões/ano, no mercado interno.
A média de preço de vaso florido gira, em S. Paulo, no entorno de R$8,00, e, no Rio, de R$10,00. Nos demais centros consumidores e de produção pequena ou inexistente, como Belo Horizonte, Brasília, Goiânia e Salvador, tais preços se elevam em nunca menos de 30%, devido a custos de transporte e remuneração do vendedor.
Estimo o lucro do produtor, quando também comerciante, em cerca de 25% do preço final de venda.
Isto parece evidenciar que a atividade de floricultura de orquídeas pode representar algum interesse, sobretudo em mercado de tão grande potencial como é o brasileiro e que cresce a taxas anuais bastante elevadas. Deve destacar-se que tal mercado, por encontrar-se longe da saturação, pode crescer muito, ainda. Para ajudar o crescimento do mercado consumidor as sociedades de cultivadores ou amadores de orquídeas, com suas reuniões e exposições, suas publicações, páginas eletrônicas, boletins, etc. são preciosos instrumentos.



 
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(*)
Ainda não se meditou o suficiente sobre as conseqüências da 15a. Conferência Mundial sobre Orquídeas, pois foi um momento exponencial de conhecimento dos brasileiros orquidófilos pelos brasileiros orquidófilos. Cito dois fatos para mim relevantes: apesar de termos feito um esforço invulgar de divulgação, inclusive com visitas pessoais e palestras em quase todas as províncias orquidófilas brasileiras, fomos surpreendidos, à última hora, por duas gratíssimas surpresas, com os comparecimentos do Jardim Botânico de Brasília e da Sociedade Paraense de Orquidófilos (olhem no mapa do Brasil, quanto essa gente teve de viajar para chegar com plantas viçosas...)
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(**)
O texto que se vai ler sobre indústria e comércio de orquídeas no Brasil é uma adaptação de uma Apresentação feita para um simpósio realizado em Ilhéus, Bahia, pela Secretaria de Agricultura do Governo do Estado, dentro de um projeto de criação de pólo de floricultura na região cacaueira do estado, assolada, como se sabe, por doenças fúngicas, que lhe retiram a importância econômica que desempenhou no passado.
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